O Perfil das Queixas Cognitivas Associadas à Demência Neurodegenerativa: Análise Retrospetiva Unicêntrica no Norte de Portugal
DOI:
https://doi.org/10.46531/sinapse/AO/180/2026Palavras-chave:
Disfunção Cognitiva, Distúrbios Neurocognitivos, Doenças NeurodegenerativasResumo
A deteção de fases iniciais de distúrbios cognitivos neurodegenerativos é um desafio. É cada vez mais importante diferenciá-las das doenças não neurodegenerativas, especialmente com a recente aprovação de tratamentos modificadores da doença para estadios iniciais da doença de Alzheimer na Europa. Este estudo teve como objetivo identificar o perfil clínico de pacientes que se apresentaram pela primeira vez a uma consulta externa de Neurologia com queixas cognitivas devido a condições neurodegenerativas, como Alzheimer e distúrbios relacionados.
Foi realizado um estudo retrospetivo, unicêntrico, de pacientes encaminhados pelos cuidados de saúde primários à consulta de neurologia geral por queixas cognitivas. Os dados sociodemográficos e clínicos foram recolhidos dos registos dos cuidados de saúde primários e da primeira consulta de neurologia. Os diagnósticos de "doença neurodegenerativa" ou "doença não degenerativa" foram estabelecidos de acordo com o julgamento do médico assistente de acordo com as diretrizes estabelecidas. Os doentes com demência evidente (estadios moderado/avançado) foram excluídos.
Dos 283 pacientes, 169 (59,7%) tinham uma condição não degenerativa, 108 (38,2%) uma doença neurodegenerativa e 6 (2,1%) perderam o seguimento. As características associadas ao diagnóstico de doença neurodegenerativa foram: idade >76 anos (OR 1,05); estar reformado (OR 3,42); ausência de patologia psiquiátrica (OR=0,54); apatia (OR 3,36); queixas cognitivas major (isto é, défice cognitivo suscetível de causar danos ou necessitar de assistência) (OR 2.27); ); ausência de tarefas de responsabilidade (OR=0.50); presença do head turning sign (OR 2,); ausência de tarefas de responsabilidade (OR=0.50); testes à cabeceira com pontuação abaixo do ponto de corte estabelecido (OR 7,88); atrofia focal/assimétrica na imagiologia (OR 2,40). Após análise multivariada, a não evocação de palavras na evocação diferida e atrofia focal/assimétrica na imagem permaneceram preditores significativos de neurodegeneração. O modelo alcançou 93,4% de precisão, 87,4% de sensibilidade e 88% de especificidade na distinção entre distúrbios cognitivos degenerativos e não degenerativos. As alterações diagnósticas ocorreram em indivíduos mais velhos (OR 1,04), com scores mais baixos nos testes à cabeceira (OR 4,17), presença de sinais de parkinsonismo (OR 4,05) e apatia (OR 4,40). O nosso estudo traça o perfil de pacientes que se apresentam pela primeira vez a uma consulta de neurologia geral que podem estar em estadios iniciais de um processo neurodegenerativo (mais velhos, queixas major, testes cognitivos à cabeceira abaixo dos limiares estabelecidos, atrofia focal e/ou assimétrica em imagens cerebrais, tarefas de evocação diferida prejudicadas e parkinsonismo) e que podem beneficiar de testes adicionais. Recomenda-se a validação prospetiva desses critérios nos cuidados de saúde primários e em outras clínicas de neurologia.
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